Carmina Burana; o cântico profano produzido por monges bávaros.

Produzida em 1937, Carmina Burana tem uma história bem mais antiga. Voltado para o lado dos vícios cristãos, antigos manuscritos bávaros foram a receita do alemão Carl Orff a produzir sua mais conhecida cantata.

Produzida em 1937, Carmina Burana tem uma história bem mais antiga. Voltado para o lado dos vícios cristãos, antigos manuscritos bávaros foram a receita do alemão Carl Orff a produzir sua mais conhecida cantata.

Carmina_Burana_Carl_Orff


A música clássica não morre, ela pode se aquietar em um canto escuro. Mesmo jovem, é impossível você não ter escutado alguma coisa de Bach e Beethoven, grandes mestres de seu tempo. O primeiro inclusive tem parte de sua flauta incorporado no funk. Chopin fez a sua Marcha Fúnebre que até hoje é tocada em funerais de grandes nomes. Outras partituras com importância atemporal são encontradas em desenhos. Pica-Pau, nos anos de 1940 cantou Fígaro, uma parte do Barbeiro de Sevilha, enquanto Pernalonga também encenou parte do cântico espanhol. No meio de tudo isso, é comum conjugar o antigo com o novo, dando uma repaginada no que é clássico. Nesse meio, temos uma uma remixagem do DJ Tiesto da canção em destaque, Carmina Burana. Que pode ser vista no Youtube por exemplo.

A música em si foi produzida pelo alemão Carl Orff, que usou alguns poemas encontrados na Baviera (ou Bavária) e assim construiu sua trilogia. Sendo assim, Carmina Burana se encontra com Catulli Carmina e Trionfo di Afrodite, produzidas respectivamente em 1937, 1943 e 1952. Esses poemas na verdade são manuscritos, e existem bem mais do que os vinte e quatro que Orff usou para sua composição. Encontrados em 1803 no convento da cidade de Benediktbeuern, os poemas eram singulares em um aspecto. Esqueça a sacralidade da vida e os bons costumes. Os poemas exaltavam o amor, o sexo e a bebida. Comportamentos que mesmo que fossem vistos em monges não eram típicos de serem narrados em obras sacras.

Carmina_Burana_Roda_Fortuna

Pela historiografia, esses monges produziram tais poemas pois estavam desestimulados pela corrupção dentro da Igreja. Observaram que tudo que aprenderam na academia (dominada pelo clero) não era visto em sua totalidade. A esse grupo tem-se o nome de Goliardos, que eram monges que se tornavam pobres e faziam questão de usar um espírito provocador em suas obras. Bem ao estilo Carmina Burana. Outro ponto que destaca a profanidade dos escritos é que eles não eram descritos somente no latim, como deveria ser. Mais parte dos poemas detinha frases no alemão médio e no provençal, um idioma aparentado com o francês. Não havia indicação que eles eram formados para criar uma música, ou uma sonata. Nos vindos do século XIII era um tanto precária a cultura musical. Porém, isso não impediu Orff de produzir sua cantata.

Notaram exatamente qual o período que a cantata foi produzida? Em 1937. Na Alemanha. Qual o contexto histórico da Alemanha aquela época? Sim, o regime nazista. Não, não é uma tentativa de vincular a maior obra de Carl Orff ao nazismo. Até mesmo porque em seu início, a obra foi vista com péssimos olhos pela alta cúpula do regime. Contudo, a Alemanha controlada por Hitler acabou utilizando a produção em 1942, quando ela foi tocada em Milão, em uma celebração entre os dois estados a época. Poucos nomes que tiveram suas obras vinculadas ao nazismo, mesmo que utilizados para propaganda sobreviveram após a queda da Alemanha em 1945. Contudo, Orff não só conseguiu sobreviver como terminar toda a sua construção. Para os curiosos, o outro membro que ainda continua em voga é Richard Wagner. Esse último já tinha morrido bem antes da ascensão de Hitler, mas teve suas obras utilizadas.

O Fortuna velut luna
statu variabilis, semper crescis
aut decrescis; vita detestabilis
nunc obdurat et tunc curat
ludo mentis aciem, egestatem, potestatem
dissolvit ut glaciem.
Sors immanis et inanis,
rota tu volubilis, status malus,
vana salus semper dissolubilis, obumbrata
et velata mihi quoque niteris;
nunc per ludum, dorsum nudum
fero tui sceleris.
Sors salutis, et virtutis
mihi nunc contraria, est affectus, et defectus
semper in angaria.
Hac in hora, sine mora, corde pulsum tangite;
quod per sortem; sternit fortem,
mecum omnes plangite!


Ó Sorte, és como a Lua
mutável, sempre aumentas
e diminuis; a detestável vida
ora oprime e ora cura
para brincar com a mente; a miséria, o poder,
ela os funde como gelo.
Sorte imensa e vazia, tu – roda volúvel –
és má, vã é a felicidade,
sempre dissolúvel, nebulosa e velada
também a mim contagias;
agora por brincadeira, o dorso nu
entrego à tua perversidade.
A sorte na saúde e virtude
agora me é contrária. Dá e tira
mantendo sempre escravizado.
Nesta hora, sem demora tange a corda vibrante;
Porque a sorte, abate o forte,
chorais todos comigo!

Voltando a cantata, o seu emblema principal é a invocação de Fortuna, uma deusa pagã. Na verdade, deusa romana da sorte e da esperança. O trecho que faz essa evocação é parte literal do poema encontrado na Bavária. Junto a entidade romana, também é mencionado o trecho da "Roda da Fortuna" uma representação comum do destino de todas as coisas. Assim como a efemeridade do que é ser humano. O trecho da música é seco. Ecoando os pensamentos dos já mencionados Goliardos. Por verem um mundo corrompido, mesmo buscando a esperança e a virtude do mundo, os prazeres acabam sendo mais fortes. É da natureza humana buscar uma felicidade que não é duradoura.  Acima, você encontrará parte da cantata e do poema em latim, a língua tradicional e de sua tradução para o português.

Nos dias de hoje, como inclusive já mencionado, o DJ Tiesto formulou uma nova batida junto da música, criando um Dance que ainda mantém o cântico gregoriano tradicional. Também é comum encontrar a canção em uma pegada mais rock ou metal, com vocais guturais e guitarras mais proeminentes. Agora, se você deseja manter o ar tradicional, também temos. Junto dessa matéria, colocamos o vídeo de uma produção de André Rieu, um dos maiores nomes quando o assunto é regência de orquestras. Ele, em 2011 se apresentou em Amsterdã, na Holanda, em uma das melhores versões de Carmina Burana que você encontrará. Fique a vontade e sinta o clima.

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  1. Música inspiradora. Só não sabia da tradução dela.

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O Curioso Mundo de Vítor Hugo: Carmina Burana; o cântico profano produzido por monges bávaros.
Carmina Burana; o cântico profano produzido por monges bávaros.
Produzida em 1937, Carmina Burana tem uma história bem mais antiga. Voltado para o lado dos vícios cristãos, antigos manuscritos bávaros foram a receita do alemão Carl Orff a produzir sua mais conhecida cantata.
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